Não houve palavras. Só nós os dois sabíamos que era uma despedida. Só nós.
Aos poucos estou a deixar o quarto de paredes tingidas. Passaram mais de vinte anos e a menina fanzina continua de cabeça enterrada nas barras de ferro da tua cama.
Pela janela, raios de sol vão entrando. Tímidos. É Outono. O ambiente não aquece. Aquela janela, para mim, não vai dar a lado nenhum.Vou-me deixando ficar e adio o regresso. Contigo estou em casa, não quero ir para mais lado nenhum.
Oiço os risos miudinhos. Revejo-me nos olhares. Todos, de corações apertados, de corações ao alto. Ninguém faltou, como é raro. Nem imaginas. Quanta beleza há naquele momento.
Sinto o cheiro da mudança, vem misturada com desinfetante de hospital.
Não me peçam para sair, porque não estou preparada para ir. A minha recusa compensou. Lá de cima mandaram perguntar. «Então não abraças o teu avô?»
Deixei-me levar pela ordem. Os nossos corpos abraçaram-se e as nossas almas tocaram-se. Até sempre.

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