quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sou toda sua!

Elias continuava a olhar fixamente para Mena enquanto deixava transparecer pela gola da camisa azul o suor que o nervoso miudinho da situação lhe provocava, principalmente na zona do papo do pescoço. O lenço velho e gasto que trazia no bolso servia para ensopar os pingos da transpiração.
Mena descruzou os braços e lentamente aproximou-se do chefe da brigada. Com a cabeça inclinada sobre o seu ouvido sussurrou-lhe:
- Inocente! – E num gesto provocador, descai a ponta da língua húmida sobre o lóbulo do polícia.
Sobressaltado, mas visivelmente excitado, Elias empurra-a contra a parede e grita-lhe:
- Não é assim que te vais escapar.
Mena solta uma gargalhada ensurdecedora, inconsequente, e replica:
- Não percebe? Já me apanhou.
De trás das costas saca uma navalha, aponta-a a cara de Elias enquanto a balança da direita para a esquerda, como se de um pêndulo se tratasse.
O agente mal podia acreditar que ela conseguira entrar na esquadra com uma arma. O seu rosto contraído não dava o menor sinal de medo. Sem hesitar por um segundo, fixa-a olhos nos olhos.
Descontraída, Mena, mete a outra mão ao bolso e num gesto ríspido atira para cima da mesa um maço de papéis amarrotados e acrescenta:
- Sou toda sua!