sábado, 26 de abril de 2008

O homem da gabardine

Reencontrei-o!
Desta vez só, mas com o mesmo olhar distante e com aquela gabardine beje (essa cor tão mal amada, às vezes injustamente chamada de branco sujo), que o distingue. Faça chuva, faça sol lá está ele com a sua gabardine beje.

Vejo-o em todo o lado, parece que me persegue. Por vezes dou por mim a pensar se ele é real ou se trata apenas de uma personagem de ficção, criada pelo meu imaginário. É alto, tem perto de 40 anos, não sei o seu nome, sei apenas que é pai de um menino. A única informação que realmente me importa!Cruza-se comigo como se de uma flecha se tratasse, passa num ápice. Não consigo acompanhá-lo.

Os seus olhos vão um pouco acima do horizonte, parece absorto em si. Não vê nada. Aquela pasta preta que traz, não sei o que contém, mas os seus trajeitos de executivo não combinam com o desprendimento dos seus gestos. À primeira vista parece-se com algo grotesco. O seu rosto quadrado e o penteado pouco elegante fazem-no parecer menos amigável.

Quando o observo vejo nele a inquietação de quem não entende nada do "mundo lá fora", parece que diz a todo o instante: "socorro tirem-me esta gabardine, sinto-me preso!".

A primeira vez que o vi foi num autocarro com o seu menino. Não sei porquê fiquei a olhar para eles o tempo todo até chegar ao meu destino. Ao príncipio via nele o carinho paternal de quem ensina algo ao seu rebento, aquele que trouxe ao mundo. E admirei-o!
Em seguida reparei que não fazia apenas isso, colocava-se de igual para igual com ele. O filho perguntava-lhe algo, não me recordo o quê, sobre as particularidades de um animal qualquer, enquanto apontava para o livro que vinham a ler. Ele respondia. Curioso. Tinha sempre tempo e paciência para o ouvir e respondia-lhe. Parecia que sabia do que falava. Mas respondia-lhe como se ele próprio fosse também uma criança que vê e ouve tudo pela primeira vez. Ingenuamente pensei: Será ele deficiente. Porque fala assim?

Agora tenho a resposta! Conheci o tal principezinho que Antoine de Saint- Exupery tanto falava!

Sem comentários: