quarta-feira, 12 de março de 2008

Já vou jantado!

- Desculpe! Aqui pode-se fumar?
Levantei a cabeça e vi um homem alto, negro, de olhos escuros e brilhantes, cuja altura e farda de cantoneiro fazem-no sobressair no meio de todas as pessoas que se encontram na estação do Oriente.
- Não - Respondi eu apontando na direcção de uma das paredes. - Veja, está ali o sinal.
- Quer um destes cigarros, acho que se chamam cigarrilhas, foi um amigo que me deu.
- Não, obrigado não fumo - repliquei de forma seca e abrupta.
De pé. Continua a meter conversa.
- Sabe, este meu colega, vá amigo, é mesmo porreirinho. Despediu-se hoje lá do serviço, arranjou melhor para uma Junta de Freguesia, acho que fez muito bem. E convidou-me para jantar para se despedir de mim, mesmo porrreirinho. Ai, as horas! A minha senhora já me ligou.
Sorrio sem mostrar interesse à espera que ele desistisse. O metro chegou e eu penso: "é a minha salvação". Mal se abrem as portas segue-me e senta-se ao meu lado.
-Não se importa que me sente? Assim vamos falando.
Já ao meu lado reparo nos seus traços finos: um nariz ponteagudo e um bigode fino e bem aparado escondem um sorriso branco, perfeito e luminoso. Sorri sem pretensão ou maldade.
- Comemos bem, aqui na Expo - continua ele- bebemos duas garrafas de vinho, eu comi massa e ele uns bifinhos de frango com batatas fritas, mesmo porreirinho este meu amigo.
Percebo a inocência dos seus gestos. Quer apenas falar, mas também com duas garrafas de vinho bebidas!
- A minha senhora, sabe estou casado com uma ningeriana, ligou-me. Já são 22h30 e eu saí do serviço às 20 horas e ainda tenho de ir buscar uma botinja de gás, vivemos aqui na Alameda.
Não aguento e solto uma gargalhada. Porque razão me está ele a contar isto!
- A menina quer um calendário destes que tenho aqui? - pergunta enquanto revolta o único saco de plástico que trazia na mão.
- Obrigado. Não quero.
- E uma garrafa de vinho? Tenho aqui duas, leve, leve.
- Não quero. deixe estar. Guarde para beber com a sua senhora - gracejo eu já sem desconfianças em relação a esta peculiar figura.
O boné de cantoneiro, mal enfiado na cabeça, deixa transparecer, uns caracóis, tipo carapinha, meio desfeitos, que compõem o seu aspecto simples, no entanto agradável. Reparo que as pessoas que estão sentadas no banco que ladeia o nosso não tiram os olhos de nós. Ele fala alto, chama a atenção e uma rapariga jovem tenta perceber o rumo desta estranha conversa.
- Olhe, - continua ele- eu trabalho nesta empresa aqui e aponta para o emblema estampado na sua farda- e estou muito bem, já tinha trabalhado com eles há uns tempos e as pessoas são muito boas e chamaram-me para voltar a trabalhar com eles.
De repende, tira de dentro da carteira um molhe de papeis. Eu calada, limito-me a ouvir e a acenar com cabeça afirmativamente. Quero apenas observá-lo.
- Está aqui tudo. A explicar porque é que não podemos faltar ao trabalho. Tenho aqui o número desta engenheia, Ana Magriço, que é muito simpática e nos dá o serviço.
Olho para o lado e vejo que temos uma audiência muito atenta. Aceno à rapariga que nos ouve e que sorri automaticamente. Percebe que eu e o meu amigo cantoneiro na verdade não nos conhecemos. Na verdade, na verdade, nem eu percebo o rumo do diálogo.
- Como é que o senhor se chama?
- José Silva. responde ele - Que idade me dá?
- Perto de 40 anos - digo!
- Tenho 50, menina, pareço mais novo, não pareço?! - Confirma com vaidade o seu aspecto jovial.
- O meu avô também se chamava José e era cantoneiro, muito prazer em conhece-lo.
Chegamos ao fim da linha.
- Felicidades menina. É muito simpática.
Acelero o passo para me dirigir às escadas rolantes e seguir o meu destino, quando ainda oiço já ao longe.
- Vou agora para casa - no meio de uma gargalhada continua - e já vou jantado!