terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Camila e Pedro II (Continuação)

Continuo a tentar não entrar nesta longa e já batida discussão. A Camila e o Pedro conhecem-se há três anos. Uma troca de olhares num corredor apagado do escritório foi o suficiente para Camila reparar finalmente nele. Alguns meses mais tarde bebem um café e, na semana seguinte, um copo que deu origem à primeira noite de sexo. Muitas outras se seguiram. E os corpos já se entrosavam sem problemas ao fim de três encontros na casa dele, mas a alma, essa, não havia maneira de se tornar numa só. Jantares românticos arrancam suspiros, sms para o telemóvel, com versos roubados de um poema francês, criaram um hábito, que ela não se conformou em perder.
Pedro é o advogado mais cool da “praça”, pelo menos aos olhos de Camila. Vive a vida de forma ligeira. É como aqueles penteados que estão na moda, sabem? Todos despenteados e despretensiosos, mas que levam horas até ficar naquele estado, com a ponta para cima e a franja para baixo, pensado ao pormenor, cada madeixa com o seu lugar marcado. Nem tudo o que parece é, (parece-me!) E ele é assim mesmo. O seu jeito desprendido e desligado é coisa de quem não se quer envolver.

Camila e Pedro II

Sentadas numa esplanada do centro da cidade, daquelas que ninguém dá por ela, especialmente no Inverno, não resistimos a debater o nosso tema favorito: gajos. Camila parecia distante, distraída até com os patos que nadam no lago mesmo ao nosso lado. No auge dos seus 30 anos, a minha amiga conserva, ainda, um olhar de menina, o rosto arredondado e o os olhos cor de mel são um verdadeiro desatino para os homens que passam. Os cabelos ondulados, castanho claro, caem-lhe na face. Não é muito alta, nem muito magra. Estrutura média, diria. Como é Sábado está vestida de forma desportiva, de jeans e com uma camisola verde de gola de barco e uns ténis pretos, ao contrário do habitual, já que o seu trabalho lhe impõe uma conduta de vestuário, não fosse ela advogada.

- Hello, a terra chama Camila…
- Ai! Estava distraída, desculpem.
- Sim, nós percebemos – responde a Catarina, a nossa ruiva endiabrada - Pensas em quê?
- Nada! Esquece, diz ela perdida não se sabe muito bem onde!
- Acreditas que vou ter de fazer horas extraordinárias, por causa do meu colega, ou melhor da sua lentidão. - Continuo eu como se nada fosse e já adivinhando o problema de Camila.
- Xi, outra vez! Não há maneira de atinar, que o ponham na rua, diz Catarina indignada.
- Acham que ele gosta de mim? – replica Camila, como se de repente acordasse.
- Bem, depende daquilo a que chamas gostar, digo eu impulsivamente.
- Claro que sim, diz Catarina – Porque é que estás triste?
- Ás vezes parece que ele me adora. Trata-me como se eu fosse uma princesa. Os seus olhos sorriem quando tocam nos meus, mas outras vezes parece que não se esforça para estar comigo, que o pouco lhe basta.
- E basta, Camila. Tu é que complicas - esforça-se Catarina para a animar.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Pedro e Camila

Hoje mal consegui dormir com os remorsos. Apesar de tudo a Camila tem razão. Não devia ter reagido assim. A vida é dela, enfim! O problema no meio disto tudo é que eu não me sinto bem. Vê-la ceder a algo que ela própria questiona - ambas sabemos, aliás todo o bairro sabe, que amanhã vai chorar porque o Pedro não ligou, ou porque foi ver o Benfica em vez de estar com ela - põe a minha separação em causa. Põe as minhas pseudo certezas a nu, expostas, sobretudo ao meu próprio julgamento.

- Desculpa! - Comecei eu num telefonema fora de horas - Tenho de te apoiar, independentemente do que eu penso - (20 anos de amizade é isto mesmo. Estar ali. Embora saibas que a tua amiga cai, vezes sem conta, no mesmo erro. Não vale a pena espernear, um dia ela verá) – pensei eu num segundo.
- Isabela?? Estás aí, pergunta ela indignada com o meu silêncio.
- Querida, sim. Perdoas-me?
- Sabes que não vivo sem ti, miúda! Tenta ser mais compreensiva com o Pedro, por favor!
- Ele ligou?
- Não!
- Estás bem?
- Sim…
A voz trémula fazia-me temer o pior.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Histórias de Hoje (primeira parte)

Ali parada pensei que a minha amiga tinha enlouquecido. Continuava a carregar os sacos das compras, olhou para mim em tom provocatório e responde-me:
- O que foi?! É como te digo, acabou a choradeira.
- OK, acabou a choradeira - digo eu meio torcista. Mas posso saber do que esperas? - E com uma careta acrescento… Tens a certeza que não queres mais??
- Não falo mais contigo sobre o Pedro.
- A mim pareces-me confusa, Camila, só isso. E como posso comprovar nem sequer tens resposta.
- Vais começar a dizer que tenho medo de estar só e que por isso suporto uma relação que está muito além do que eu desejo para mim. Tens sempre a mesma conversa.
- Mais uma vez é isso!
Bato com a porta. Não devia, mas cansei-me deste tema. Pedro, Pedro, Pedro e os seus dramas. Percorro a rua, ainda movimentada apesar da noite já ir bem alta. Ás vezes preciso de andar. Preciso de pensar. Chego a casa e o ritual repete-se. Visto as calças de “descanso”, como chamo ao maión da ginástica de andar por casa. Vou para a varanda com uma chávena de chá quente enquanto vejo, lá ao fundo, as folhas secas a caírem, que compõem o chão daquele jardim. É início de Novembro, e o Inverno começa a tomar conta da minha alma.
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