Demoro-me em frente ao portão verde. Respiro fundo e avanço. Os meus passos são pesados. Cada escada de pedra conta uma história. Cada planta alinhada traz-me uma recordação. Ao cimo das escadas fica o pátio... as lágrimas não se retêm. De repente vejo-o todo enfeitado com folhas das páginas amarelas. Era a festa de Santa Tita. Corriamos em alvoroço, era um dia como outro qualquer para festejar. Mas a Santa Tita era apenas uma invenção das nossas jovens e ávidas mentes para dar vida ao pátio. Já na rua apregoavamos: "Quem quer dar uma moedinha para a festa da Santa Tita?". Houve quem fosse na cantiga e ainda comemos um gelado.
Ainda atordoada pelos últimos acontecimentos, numa espécie de limbo, consigo sentir o calor dos verões secos e o frio cortante dos invernos rigorosos da minha terra. À entrada da porta inspiro. Sinto pela última vez o cheiro doce e abafado da casa da minha avó. O cheiro a graxa de sapatos continua entranhado nas minhas recordações. Dou por mim muitas vezes a parar em frente a um sapateiro só para me lembrar do meu avô. Revivo os movimentos rápidos e fortes com que ele engraxava os sapatos de toda a família. Fosse qual fosse a cor, ele tinha-a.
Parece que estou a ouvir os passos pesados da minha avó, que fazem estremecer as tábuas velhas da entrada do seu quarto. Um som oco que nunca hei-de esquecer. Ao longe a cozinha. As luzes estão acesas, a televisão está ligada e lá está ela sentada à mesa a descasacar batatas, em cima de um jornal velho, para o jantar. E eu ali à sua frente beberico um chá e aqueço-me na braseira eléctrica enquanto a oiço. Fico imóvel só a observar os seus gestos...sinto-me única aqui. Fecho os olhos e memorizo a sensação de conforto e de amor que esta casa me dá, percorro 300 km todos os anos só para voltar a senti-la. Abro os olhos e o vazio invande-me. Corro para a janela da sala e penso no fim de tarde da minha terra. Debruçada sobre o parapeito, ali permaneço. Os sons da igreja às 7 da tarde. Aquela paisagem que dá de frente para outro prédio antigo, os vizinhos a passarem, nada apressados. A voz do merceeiro que me viu nascer. Tudo parece um conjunto. Nada é igual se não for sentido daquela janela, especialmente ao fim da tarde. A sala de jantar conta a história da minha família. Vários retratos alinhados mostram-nos... em momentos felizes, claro. Um autêntico albúm de fotografias. Um por um. Ali estamos todos, cada um com o seu lugar. As fotos a preto e branco marcam o ínicio. A minha mãe está vestida de freira, no dia da sua primeira comunhão. O ar assustado diz tudo: não estava habituada a fotografias. Os meus tios com uma ar atravessado pousam com pouca naturalidade, mas com muita alegria. Mais tarde, já a cores, são tropas. De braço dado num espírito de camaradagem.Os casamentos, os filhos, a minha primeira comunhão... está tudo ali e para sempre ali permanecerá, pelo menos na minha memória!