Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

Simplesmente Roda!







Inspiro-me na roda. Nesta roda que gira.

Neste mundo que vai, neste mundo que volta.

Respiro fundo e olho para a repetição,

recai aos meus olhos, sem piedade ou perdão.


E voltamos todos à roda. Todos, sem qualquer excepção.

E quando a roda gira, voltam-se todos para a reinação.

E quando volta a girar, perdemos a noção.


Como se a cada momento nos perguntássemos,

porque não gira de feição.

Porque a roda não pára e gira sem direcção.

Amanhã é um momento. Hoje um tormento. Ontem uma diversão.

Hoje rimos, amanhã desfrutamos. Ontem choramos.


E ainda perguntamos, porque não gira de feição.

Repetimos os passos e ela a girar,

Não pára, não pára.

E nós a perguntar.


E mais um pouco, mais um pouquinho.

Estamos quase a chegar.

Pensamos estar perto, repetimos o trajecto.

E zás ela volta a girar.


Foto: Mônica Benedetti

Colecção Círculo Vicioso 2002-2005

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

Tempo













Transformo os meus dias em tempo.

Tempo que não tenho, tempo que persigo.

Não estranho a sua passagem. Vejo nela uma vantagem.

A vantagem de não parar. De continuar com ou sem tempo.


Olho para o tempo como sinto uma brisa de vento.

Não o alcanço, sinto-o. Não o vejo, mas pressinto-o.

Da sua passagem um vendaval que me atravessa.

Que agarra e me impede de não seguir em frente.


Espero sem demora pelo meu tempo.

Diz que todos temos o nosso tempo.

E o tempo é implacável. Deixa marcar profundas no meu ser.

Leva-me para tantos lugares, tantos quantos aqueles onde eu quero estar.

Perturba os meus sonhos, limita os desejos de quem quer voar.


Basta perguntar ao tempo se tem tempo de me embalar.

Não embala ninguém, leva-nos muito mais além.

Não espera. Não se compadece com a inexperiência de ninguém.


Cura. Mas também fere.

Magoa, mas também a amacia a dor.

Quebra. Mói. Mas também fortalece.


Parece enorme na juventude e encolhe com o passar dos anos.

Pode ser doloroso ou simplesmente fenomenal.

Ninguém vive sem ele. Todos morremos com a sua doce passagem.

Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Se eu fosse um aspirador

Se eu fosse um aspirador, aspiraria a tua dor. Nem pó, nem réstia de cotão pairariam no teu coração.
Da mágoa não restava nada... Ele brilhava, brilhava!
Sugava o sofrimento, zero de tormento! E num brinco tu ficavas, mais uma vez brilhavas.
Ia ao mais pequeno recanto, para ter a certeza que nem por um dia sofrias.
Para que esse papão, esse tal de cotão, não ocupasse nem um milímetro desse grande coração!

Para o Pedrinho - 27 Julho 2009

Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Para ti, Lisboa!

Amo-a! Amo-a como um filho pode amar uma mãe de beleza etérea, impressionante, mas distante. O pão com que me alimenta faz-me crescer dia a dia, mas o seu manto de luz dourada que se ilumina lá dos céus, não me aquece o peito em noites frias.
Não me embala os sonhos, quando encosto a cabeça na minha almofada.
Do seu cheiro não me lembro. Não o sinto. Fecho os olhos. Dos seus sons, um turbilhão, que me martela cá dentro, com aquele zumbido em coro.
O meu coração não se aperta quando penso em ti, nunca serás minha, nunca serei tua.
Não me deste o nome, mas seguraste a minha mão- A minha mão pequena e ossuda que queria agarrar o Mundo. E o meu Mundo eras tu, o meu novo Mundo por descobrir...
Tantas alegrias, tantas tropelias, tanta dor, tanto amor... E eu continuo aqui! Viste-me tornar mulher e foste crescendo aos meus olhos. Para mim serás sempre grande demais.


Domingo, 25 de Abril de 2010

Sem Título

E se por um momento eu parasse...
E se de repente a vida cristalizasse.
Se num ápice tudo acontecesse, assim, de repente!
E se eu fechasse os olhos, agora, e a vida corresse, corresse...longe, por ali fora.
Queria ali tornar, àquele ponto.
Sim, mesmo nesse ponto. Porque não àquele lugar?
E se o Espaço, num segundo, pudesse mesmo ser o meu lar.
E se eu abraçasse mesmo o Mundo onde é que poderia ficar?
Aqui mesmo, diz ele, de olhar terno e seguro, poderás algum dia ser o meu Mundo?
Gira, volta, gira e volta a rodar.
Canta, passarinho, canta, vais encontrar o teu lugar.
E se no espaço de um segundo - vê bem, num segundo - não o conseguires encontrar, então, olha...espera um pouco!
Canta, passarinho canta, nunca pares de cantar...os sonhos, o teu ninho, algum dia hás-de encontrar.
Não te sintas perdido, voa, se tiveres de voar.
Repara bem...o teu destino, esse, ninguém te pode roubar!

Escrito a 14 de Janeiro de 2009

Para a Joana que tem lindas asas para voar.

Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Tratado da Felicidade


Não moas pensamentos lascivos que te picam a mente, como se de uma lâmina afiada se tratasse;
Não deixes que o peso da idade te vergue a coluna vertebral;
Não admitas que o teu semblante possa descair;
Não deixes a pele do teu rosto secar, quando te expões a raios que queimam;
Não consintas que a tristeza te embacie o olhar;
Não deixes que o sorriso se esmoreça a cada contrariedade;
Não permitas que um desgosto te dilacere, te rasgue o peito num golpe profundo;
Não toleres que o saco que carregas ao ombro seja pesado demais;
Não deixes que os teus braços tremam só porque achas que algo é grande demais para abraçares;
Não queiras que as tuas pernas falhem a cada sobressalto;

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Sou toda sua!

Elias continuava a olhar fixamente para Mena enquanto deixava transparecer pela gola da camisa azul o suor que o nervoso miudinho da situação lhe provocava, principalmente na zona do papo do pescoço. O lenço velho e gasto que trazia no bolso servia para ensopar os pingos da transpiração.
Mena descruzou os braços e lentamente aproximou-se do chefe da brigada. Com a cabeça inclinada sobre o seu ouvido sussurrou-lhe:
- Inocente! – E num gesto provocador, descai a ponta da língua húmida sobre o lóbulo do polícia.
Sobressaltado, mas visivelmente excitado, Elias empurra-a contra a parede e grita-lhe:
- Não é assim que te vais escapar.
Mena solta uma gargalhada ensurdecedora, inconsequente, e replica:
- Não percebe? Já me apanhou.
De trás das costas saca uma navalha, aponta-a a cara de Elias enquanto a balança da direita para a esquerda, como se de um pêndulo se tratasse.
O agente mal podia acreditar que ela conseguira entrar na esquadra com uma arma. O seu rosto contraído não dava o menor sinal de medo. Sem hesitar por um segundo, fixa-a olhos nos olhos.
Descontraída, Mena, mete a outra mão ao bolso e num gesto ríspido atira para cima da mesa um maço de papéis amarrotados e acrescenta:
- Sou toda sua!